Em construção

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Existe um sonho. Que não é exatamente meu, nem é exatamente original. Mas pouco importa, a meu ver, a autoria ou a originalidade dos sonhos. Nem importa exatamente a sua realização, pois se realizado, o sonho, enquanto sonho, morre. Para que nasçam realidades.

Importam então, as marcas deixadas pelos sonhos na vida durante os esforços humanos na direção de construí-los. O sonho é uma semente,
que espera pelo solo fértil onde possa florescer, por isso não pertence a alguém. A semente não pertence ao pedaço de solo onde acaba por germinar, a terra apenas permite à semente que ela se realize.
Esse sonho, enquanto semente, ainda não conhece a forma pela qual irá emergir na realidade, ele a procura.
Ao mesmo tempo em que busca as condições mínimas necessárias para poder germinar. Ele já esperou demais para acontecer...

Ele sabe que, mesmo que consiga, ele será ainda insuficiente
para realizar os seus propósitos. Sim, o sonho também possui seus próprios sonhos, seus futuros frutos, portadores de novas sementes-sonhos. Assim como também ele é semente oriunda de sonhos mais antigos que conseguiram de alguma forma existir no mundo.

E nós, humanos, formamos a rede capaz de transportar as sementes por espaços e tempos e criar as condições propícias para elas.
Não somos os donos dos sonhos, não somos geradores das possibilidades de existência. Mas somos o que as pode permitir, somos o seu meio.

Este ao qual me refiro, poderia se dizer que é o sonho de muitos, quase o sonho de todos, em algum nível:

a idéia de um mundo onde se pudesse viver plenamente a vida, e nada mais.

Qualquer um que queira vê que o mundo tal qual o conhecemos não nos oferece as condições propícias para sermos livres ou plenos ou saudáveis. Qualquer um que queira vê que o mundo, tal qual o conhecemos, nos rouba o tempo e os esforços, nos desgasta, nos enfraquece.

Mas se nós, humanos, somos o meio para as possibilidades de existência se realizarem, então é que o mundo tal qual o conhecemos se fez das possibilidades de existência que se realizaram efetivamente em nós. É o mundo que habita o humano e não o contrário. Porque isso de mundo e de vida e de realidade existe apenas nos sentidos que atribuímos a tais nomes e às coisas às quais eles se referem. Sendo assim, seremos nós o meio para a realização de nossas próprias possibilidades de existência.

Então que aquele sonho encontra um possível terreno para pousar: aquilo por nós chamado Educação. Parece um terreno bom pois, pelo que se sabe, trata-se dos processos de ensinar e aprender, ou seja, processos de troca, onde acontece a “formação” do humano. Ali, onde o humano apreende os elementos pelos quais se constituirá, parece o espaço ideal para torná-lo condição de realização das potências de si mesmo. Isso se as idéias de Educação e aprendizagem forem concebidas como espaços para criação e construção de conhecimento, em vez de apenas como ferramentas de ajuste e adaptação. Mas esse sonho é suficientemente corajoso para acreditar que assim possa ser...

Uma vez encontrado o terreno, esse sonho ainda não conhece, embora possa intuir, sua futura forma. Ele continua a buscá-la. Pensar educação remete a pensar “escola”. Então talvez ele nascesse sob a forma de algo como “uma escola que tornasse desnecessária qualquer escola”.
Porque esse sonho não gosta de escolas.
Tais quais as conhecemos.

Mas é que a partir daqui o sonho necessita de sua condição humana de acontecimento. Esse processo acontece agora, exatamente no instante em que eu (seja isso o que for), decidido escrever um primeiro texto, ainda bem vago e talvez excessivamente metafórico, para começar a dar algum espaço no mundo para esse sonho. E o processo continua, num próximo agora, quando algum outro eu (você, no caso) lê o texto e sente algo.

Se houver ressonância, um próximo passo virá.

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